
Chegou a hora de dizer adeus aos planos, colocar tudo na velha mala e bater a porta. É sábio aquele que luta com todas as armas até o esgotamento, mas mais sábio ainda é o que percebe quando tudo está perdido e a única atitude coerente a se tomar é a desistência. Foi pensando assim que ele abandonou o barco. Seria menos dramático se não fosse as cenas do dia anterior, tantas palavras em navalha, fotos aos picotes pelo chão, lágrimas misturadas a berros e soluços enervados. Mas foi como deveria ser, as pessoas reagem de acordo com o que as perturbam, e se tinha um fato a ser admitido era que ele realmente manchara aquele amor rosa bebê com um vermelho escandalosamente vulgar. Não cabiam mais máscaras, a mentira estava fresca e desnuda. Por mais que a insignificância daquele ato fosse bradada aos sete ventos nada cala um fato. Se ela ao menos soubesse em quantos pedaços repartira seu gélido coração de homem valente, pensava... Mas ele sabia que ainda assim nada iria modificar muito. Ela era um ponto final; certa, decidida e muitíssimo orgulhosa. Voltar atrás seria como admitir que tudo que acontecera fosse extremamente natural e aceitável, mas não, não era! Então a porta bateu, num ronco melancólico pela casa silenciosa, enquanto lá dentro, olhando um par de meias presas em mãos trêmulas, uma lágrima rolava.