domingo, 29 de março de 2009


"Bom dia, está começando mais um..." Desligou a TV. Todos os papéis dentro da maleta de couro marrom claro e uma bolsa de lado. Saltou para não pisar na poça que se formara com a chuva de ontem e entrou.
Ônibus faz a gente pensar na vida, construir vidas para as pessoas , em vulto, lá fora. Se tem música aos ouvidos tudo vira videoclipe. Junta lembrança, saudade e quando menos se espera é hora de acordar, a realidade já chegou, é o seu ponto! Ela assim o fez.
Bicho emaranhado é mulher, e Clarice andava especialmente em novelo. Computador, papéis, ordens, horários, tudo era plano de fundo, interessava-a mesmo era encontrar pontos para seus is, arquitetos de tantas insônias.
Lápis às mordidas e então decidiu: ligaria naquele dia mesmo e marcaria o atrevido encontro. Era simples – pensava – digo quem sou, como soube de sua existência e marco.
Sete horas. O ponteiro resistia em marcar sete, e a jovem cacheada já havia cruzado e descruzado as finas pernas cor de leite incontáveis vezes. Viria? De certo que sim , pelo tom da voz, sim...
Beijos e abraços confusos. Só de ser plural já era bastante desajeitado. Dados devidamente trocados e então seguiram até a cafeteria.
“Não, sou noivo da prima dele. Tem certeza que era eu mesmo? Você não se confundiu?” Sim... melhor pensar assim. Vergonha, vontade de sumir e apagar aquele dia.
A aprendiz de advogada perdeu, mais uma vez, a chance de aprisionar alguém em seu destino. Mas se era para ser destino não havia de ter planos. Nada de ver rapaz bonito em foto de família do chefe, achar que descobriu quem é e armar um encontro. Nada de fantasiar e acreditar demais. Nada disso. O último seria aquele, jurava. “Agora vou esperar aqui no meu canto. Pelo menos até quando aguentar...”

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

O ponto


Chegou a hora de dizer adeus aos planos, colocar tudo na velha mala e bater a porta. É sábio aquele que luta com todas as armas até o esgotamento, mas mais sábio ainda é o que percebe quando tudo está perdido e a única atitude coerente a se tomar é a desistência. Foi pensando assim que ele abandonou o barco. Seria menos dramático se não fosse as cenas do dia anterior, tantas palavras em navalha, fotos aos picotes pelo chão, lágrimas misturadas a berros e soluços enervados. Mas foi como deveria ser, as pessoas reagem de acordo com o que as perturbam, e se tinha um fato a ser admitido era que ele realmente manchara aquele amor rosa bebê com um vermelho escandalosamente vulgar. Não cabiam mais máscaras, a mentira estava fresca e desnuda. Por mais que a insignificância daquele ato fosse bradada aos sete ventos nada cala um fato. Se ela ao menos soubesse em quantos pedaços repartira seu gélido coração de homem valente, pensava... Mas ele sabia que ainda assim nada iria modificar muito. Ela era um ponto final; certa, decidida e muitíssimo orgulhosa. Voltar atrás seria como admitir que tudo que acontecera fosse extremamente natural e aceitável, mas não, não era! Então a porta bateu, num ronco melancólico pela casa silenciosa, enquanto lá dentro, olhando um par de meias presas em mãos trêmulas, uma lágrima rolava.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Clareando idéias turvas


Hoje Maristela acordou bem cedo. Debruçou-se sobre a janela e engoliu preguiçosamente o horizonte ainda sonolento. Sua cabeça estava em redemoinhos , sentimentos em revolta naquele pobre peito feminino, mas aquela aurora dava um tom ainda mais melancólico aos seus emaranhados sentimentais. É difícil definir o que a mexia, ora achava ser o fato de ter visto seu sonho acabado e a realidade devastadora a retirar o papel de parede deixando aparecer aquela vida tão cheia tédios; ora sentia-se estranhamente satisfeita por ter se livrado de algumas manchas cardíacas arroxeadas , feridas ridículas e medíocres. Suspiros a parte, lá estava ela, vendo Eos abrir o dia, tingindo o céu com seus róseos dedos, a pensar em qualquer solução para aquietar tantas pulsações descontroladas. Suas mãos delicadas a apoiavam o enigmático rosto, transparente e tão confuso quanto o interior. Ela precisava de uma solução qualquer para o dia seguir tranqüilo , ficar daquela maneira seria demasiadamente doloroso. Pensou, calculou, mediu, sentiu cada opção e se viu presa em mais um dilema: racionalizar seu sentimento ou provar a vida sem remédios? Não dava pra se desprender de tudo que a perturbava, por mais que pensasse nenhuma resolução seria suficientemente eficaz. Então deixou tudo assim como estava, o Sol a clarear os sentidos, a vida a traçar horizontes aleatórios e ela ali, a saborear tudo isso, de cara nua, sem véus nem passos medidos.