quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Pelo pecado


Desmancha essa trança de braços e vem me mostrar
Num bruto silêncio escondido em qualquer riso bobo
Que é mesmo a hora certa pra errar a direção
Fazer valer todos os riscos e nadar no abismo desse abraço.

Eu já te expliquei as minhas desculpas
Troquei milhões de vezes a roupa, os sapatos, os olhares
Mas parece que você só se convence de que é dia
Que Deus conspirou, praguejou e saiu pela esquina.

Então só me resta te empurrar de vez pro meu mundo
Com todas as armas, até mesmo as de Jorge
Fazer você dançar no meu ritmo e esquecer qualquer pacto
Com anjos, bruxas ou olhos azuis.

Vem! Entregue-se às chamas das minhas mãos
Cruze o mundo mas não deixe essa lembrança sem existir
Faça disto o teu ponto continuativo
E no próximo parágrafo fale comigo.

domingo, 4 de novembro de 2007

Troca de calores


O noivo chegou atordoado. Lançou as contas sobre a mesa, folgou a gravata que o sufocava e caiu como podre na poltrona. Aquele calor era deveras estressante. Pensou em todos os compromissos ainda por fazer e tirou uma gota generosa de suor da testa com sua mão rechonchuda. Quatro e meia. Olhou pela janela e viu as ondas de calor emergidas do asfalto. Infernal viver naquela cidade, pensava. Cinco. Nenhuma coragem. Olhou mais uma vez pela janela, suspirou, tentou tomar fôlego para levantar mas foi inútil. A camisa ensopada começava a grudar no corpo, a agonia tomava conta. Ainda assim a fadiga vencia qualquer desconforto. Cinco e meia. O telefone toca. Ele olha com grande irritação para aquele malquisto objeto de sua casa. Insiste o infeliz em tocar. O calvo acalourado resolve, movido pelo ódio fulminante, pular da poltrona, não para atender o maldito e sim para lança-lo janela afora. Os bons modos vencem. Era ela, Ela. Doce, interrogativa, vitimando-se, acarinhando, oferecendo cura. Fim de conversa. Seis, sete, oito. Planos largados e trocados por um delicioso e espumoso banho. Dádiva, bendito, glória! Sobrou ao cevado sorrisos. Toca, agora a campainha. Quanta irritação! Ódio infindo de sons incovenientes. Insistem, resistem, utilizam nós de mãos como apelação. Bufa de ódio, enrola na toalha e vai, pingando a casa toda. Ela, com um sorriso de “Olá, querido” rasgando todo o rosto o abraça, armadura perfeita para aquele nervoso esbraseado. Dois corpos n’água. Nove, dez, onze... O calor lá fora cessa, cá dentro abrasa.

sábado, 3 de novembro de 2007

Modernismos


Vamos combinar
definir, marcar
O passo.
Dois pra cá e pronto,
não se fala mais nisso.
Todo egoísmo rítmico
nenhuma divisão desfavorável
para mim, lógico.
Não é questão de egocentrismo,
não fale uma infâmia dessas,
é só a nova estratégia feminista do século,
algo muito parecido com armadura,
proteção, vacina,
você compreende,não?
Então! Larga tua flexa,
abaixa a cabeça,
venha com as pernas guardando o rabo...
E a bola? Bem baixa, muito baixa,
meu querido.
Ótimo! É assim que a gente gosta
É assim que a banda toca
E você tem que acompanhar
Vamos combinar
Dois
Dois pra cá!

sábado, 27 de outubro de 2007

Lançar-se


Entrou em seu vestido rubro
Disritmando qualquer tristeza
Na rua fez barulho
E fartou do vinho com justeza.

A sorte lida pela espanhola
Os planos para a noite enluarada
Tudo a postos, pássaro fora da gaiola
E hoje é dia da alegria escancarada!

Moçoilos aos xavecos
Deitam elogios desavergonhados
Mas será forte, espera
Difícil com tantos sussuros melados.

No último gole da madrugada
Quem és tu? Onde estou?
Deitada no peito em pêlos, atrapalhada
Mas satisfeita por tudo que restou.